Um pequeno anjo “Qual o nome da criança?”, perguntei por hábito profissional. “Ainda não tem. Você pode escolher”, respondeu-me a mulher. Só então percebi melhor sua aparência. Não era muito alta, pele clara, cabelos loiros com a raiz castanha há muito exposta, presos num rabo não muito caprichado. O vestido largo, típico de grávida, não estava sujo, mas demonstrava pobreza. Percebi uma certa angústia, movimentos arrastados e um olhar estranho, que me avaliava.
O bebê no seu colo
estava enrolado num pano creme, em nada igual às mantas bordadas e enfeitadas
dos recém-nascidos. Levantei e me debrucei sobre o balcão, como faziam todos os
que passavam por ali, ansiosos por invadir a privacidade da minha mesa. “É
menina?”, perguntei com a intuição obtida pela única fita rosa que
discretamente enfeitava aquela coberta. “É”, respondeu-me sem emoção. Abaixei o
pano que cobria o rosto do bebê. Dormia tranquilamente. O desejo antigo da paternidade
me voltava, em lembranças do que uma gargalhada desses pequenos pode nos
provocar. Fitei a pele delicada, o rosto alvo e de traços perfeitos. Não pude
resistir à inveja: desejei que fosse minha.
Aquela sexta-feira,
vinte e dois de agosto de mil novecentos e noventa e sete, deveria ter sido um
dia como outro qualquer: certidões de nascimento, de óbito, autenticações,
firmas reconhecidas, procurações e tantos outros serviços cartorários mais e
menos frequentes.
Não é hábito
trabalharmos em todos os lugares de uma só vez. De tempos em tempos, revezamos
em cada setor. O que menos me agrada é o de certidões de óbito. Depois desses
trinta anos de ofício, iniciados no primeiro mês da minha maioridade, já sonho
com a aposentadoria. Há muito concluí que para trabalhar ali o sujeito precisa
ser muito frio. Você está lidando com a emoção das pessoas. Tudo muito à flor
da pele. Os mais comuns são os despachantes, enviados pelas funerárias. Alguns
com perfil de urubu. No mais, já presenciei filha que, entre lágrimas, soluçava
a cada informação que eu pedia. “Deixou bens?”, “Só a ca-si-nha que mo-ra-va”,
“Fez testamento?”, “Não. A-cho que nnnnão!”. Também já me assustei com a
felicidade de um homem que me informava sobre o óbito da esposa. Tantos outros
indecifráveis, frios, indiferentes, calejados talvez. Muitos precisam sustentar
a base da família que ameaça ruir. O caso mais esdrúxulo que testemunhei foi o
de uma mulher um tanto maltratada, mas que por baixo das roupas sem atrativos
ainda estava inteirona. Dona Irene, nunca me esqueci do nome. Essa, quando
perguntei “Deixou filhos?”, respondeu sem hesitação: “Meus, são três. Agora,
das piranhas que ele frequentava, como vou saber? Acho até que vai faltar alça
no caixão do infeliz pra tanta viúva”.
O melhor lugar do
cartório era onde eu estava quando Joana surgiu com o bebê. Ali normalmente eu
convivia com homens apenas felizes, outros radiantes, desesperados ou
completamente apáticos. Muitos desandavam a mostrar foto do filho, orgulhosos
de suas crias. Outros pareciam entregues a uma droga pesada e achavam graça até
de uma mera pergunta “Trouxe a DN?”. “Engraçado o nome dessa, cara, mas não
conheço. Vim sozinho”. “Senhor, a Declaração de Nascido Vivo?”. Mulheres que
pariam em casa chegavam com vizinhas para servir de testemunhas. Outras
descarregavam um saco de reclamações dos ordinários que não queriam assumir
seus filhos.
Joana veio diferente.
Não sorriu, não reclamou da falta do pai da criança, apenas pediu que eu
escolhesse o nome do seu bebê. Aleguei que não podia, mas ela insistiu. Achando
que não faria mal, disse apenas: “Ela tem o jeitinho de Angela”. “Pois, então,
pode colocar aí, Angela dos Santos, filha apenas de Joana dos Santos”.
Surpreso, sem argumento, peguei a DN, que indicava o nascimento dois dias antes
no Hospital de Bonsucesso. Para que pudesse ser registrada ali, precisava ter
nascido ou morar na região. Provavelmente a mãe também morava por perto. Pensei
logo em alguma favela das muitas que existiam no bairro. Entreguei-lhe o
registro com a sensação de que Angela iria trilhar o mesmo caminho da mãe. Ela
pegou o papel e se retirou. Não houve pagamento nem agradecimento. Apenas saiu.
Pensei em Joana e
Angela quase o dia todo. Aquele bebê me fez lembrar do nascimento de meu irmão
caçula, já órfão de pai, e que encontrou em mim, quinze anos mais velho, a
referência masculina. Quando me casei, mamãe decidiu se mudar para o interior,
próximo à irmã. “É um lugar melhor pra eu criar o Paulinho!”. Quando me
separei, comecei a perceber a solidão rondando minha rotina.
Findo o expediente,
estava distraído, esperando meu ônibus, quando senti alguém se aproximar. A
mesma voz me abordou. “Fica com ela”. Olhei para o lado e Joana segurava Angela
nos braços, da mesma forma que pela manhã. Nenhuma das duas havia trocado de
roupa. A diferença estava no olhar vivo e bem aberto da menina, recém-colocada
no mundo. “Não entendi”, retruquei. “Fica com ela. Por favor”. Joana me
estendia os braços com a menina como se fosse um mendigo suplicando um prato de
comida.
Sem raciocinar,
peguei-a no colo. Ainda vi de relance um esboço de sorriso e talvez uma lágrima
discreta. Hipnotizado, fiquei olhando para o seu rostinho. Era linda. A filha
que eu sempre desejei e Marisa nunca aceitou ter. Oito anos de casamento. Nasci
querendo ser pai. Marisa nasceu querendo ser fútil. Dia passado no shopping e
na academia. Noite gasta com cremes e cuidados. Não aceitava que nenhum
centímetro de seu corpo esculpido sofresse qualquer dano. Lembro bem do
escândalo que foi o dia em que percebeu uma estria aparecendo na coxa. Gastou
uma boa fortuna (minha) em tratamento estético. Na cama nos entendíamos bem,
mas fora dela era um desastre. Eu procurava uma família; ela, uma fonte de
renda e diversão. Acho que custei muito a me separar. Só percebi isso depois
que desfrutei da sensação de alívio ao vê-la longe, mesmo tendo que pagar
mensalmente pela minha liberdade.
Quando levantei o
rosto, recuperado, Joana havia sumido. Nenhum sinal. As pessoas que aguardavam
no ponto já não eram as mesmas. Fiquei esperando ali por um bom tempo, na
esperança de que ela voltasse. “Ela sabe onde trabalho”, pensei ao desistir de
esperar. Deixei-me guiar pelo instinto. Comprei na farmácia um pequeno estoque
de produtos para o bebê: mamadeiras, fraldas, creme antiassaduras, leite,
chupeta e sabonete. Na loja de departamentos me abasteci de macacões e cueiros.
Engraçado foi terem me permitido furar a fila por estar com o bebê no colo. Era
tudo tão novo, que aceitei. Ao reparar em todas aquelas compras, percebi o
exagero, pois a mãe voltaria, certamente que voltaria. “Tudo bem, darei de
presente a ela”, resolvi.
Em casa, ao
desenrolá-la, percebi dobrada dentro da manta a Certidão de Nascimento,
acompanhada de um bilhete. Angela estava agitada, nada que um banho agarrada ao
meu colo, como se eu fosse a mamãe canguru, não lhe desse o sono merecido. Eu
havia esquecido de comprar a banheira. A mamadeira, ela tomou dormindo.
Começávamos a nos entender muito bem. De volta ao silêncio interrompido apenas
pela respiração dela, sentei para ler o bilhete escrito com alguns garranchos e
uma urgência aparente. “Traí meu namorado e Angela nasceu. O pai dela morreu.
Acho que foi meu namorado que o matou. Não posso ficar com ela. Cuide dela pra
mim”. Adormeci sentado, lendo e relendo aquele bilhete, olhando e me
apaixonando por minha menininha.
Na segunda-feira, já
havia conseguido uma babá, indicada por um amigo, para cuidar de Angela durante
o dia. Dalva era muito carinhosa. Mãe de três filhos, já crescidos, tratava da
menina como se fosse de uma neta. A competência me custou caro, estava quase no
vermelho, mas me sentia extremamente satisfeito.
Joana, só voltei a ver
um mês depois, na manchete de um jornal desses tipo torneirinha de tragédia.
Sua foto estava estampada com a chamada sensacionalista “morta pelo namorado no
morro da Tijuca”. O texto dizia que ela estava escondida, fugindo do namorado,
há uns oito meses. Resolveu voltar para casa, achando que ele tivesse esquecido
dela. Uma vez informado onde seria o enterro, fui até lá, sorrateiro. Quase
ninguém apareceu. Ninguém que demonstrasse a emoção de um familiar. Joana foi
sepultada e se tornou apenas um nome na certidão da minha menina.
Ainda trabalhei naquele
cartório por quatro anos. Depois consegui transferência para um cartório de Niterói,
para onde me mudei. A casa em que moramos é simples, pois os gastos são
grandes, mas o quintal é a paixão de Angela, que completa hoje nove anos. Está
bonita a danada! A pele clara e o cabelo castanho são iguais aos meus. O nariz
é diferente, bem parecido com o da mãe. Conto os minutos pra encerrar o
expediente no cartório. Adoro ouvir sua voz ao chegar no portão. Me recebe com
uma chuva de beijos. A casa ficou iluminada, coisa de anjo.
Na mesinha de canto tem
uma pequena pintura de Joana, que pedi a um artista do centro do Rio para
fazer, a partir dos fragmentos de minha lembrança e da foto do jornal. Foi no
mesmo dia em que vi Dona Irene (aquela que dividiu a alça do caixão do marido)
passeando, sarada e definida, agarrada num garotão de vinte e poucos anos. A
cena me divertiu e me fez lembrar da frase de um amigo: “as agruras são mais
amargas do que definitivas”. Provei dessa verdade ao me livrar da Marisa, que
se casou com um dono de restaurante.
Está tudo perfeito.
Estou casado há dois anos com Vera, que se apaixonou por mim após algumas
autenticações e outros tantos reconhecimentos de firma. Ela e Dalva estão me
ajudando a arrumar a casa para a festa de minha filha. E no fundo de minha
consciência, sei que onde estiver, Joana me sorri, e não permitirá que percebam
o deslize da presença de meu nome na Certidão de Nascimento de nossa filha.