Telefonemas “Estava deitado na cama, a atenção em seu Flamengo que vencia o Cruzeiro, no
Mineirão. A posição do time no campeonato era menos inglória do que sua
performance sexual nos últimos tempos. Pudera: há doze meses se submetia a todas
as insanidades da mulher, para garantir que conseguiriam o bebê tão desejado por
ela. Não lhe era má a idéia de um filho, mas não podia imaginar que se
esfalfaria de praticar o sexo para conseguir esse rebento.
Tudo começara
com o decreto: “quero um bebê”. Estavam então há dois anos casados; emprego
estável para ambos, maturidade na casa dos trinta, apartamento jeitoso no
Catete, e não havia motivos para desprezar o projeto.
Como primeira
providência, pílulas no lixo. Vera aumentara ainda a freqüência das relações
para dias alternados. Elias, algumas vezes sucumbindo ao desgaste do dia, pedira
trégua, o que gerou um pequeno terremoto, com acusações de desprezo ao filho que
nem nascera, de insensibilidade com a aflição da mulher, e de estar falhando com
suas obrigações. Paz sempre fora seu lema, e por isso lá ia ele, cansado, com
sono, gripado ou murcho, buscar imaginação até mesmo fora da cama, para não
permitir que a estrelinha deixasse de ser marcada no calendário. Teria valido a
pena se Vera conseguisse engravidar. Três decepções e ela concluiu que um dos
dois era estéril. Médicos foram procurados, Vera exigiu ressonâncias e
espermogramas, os especialistas tentando convencê-la de que era muito cedo.
Resultado: Elias foi obrigado a se submeter aos métodos
conselhos-de-amigas.
A casa virou um laboratório amador de reprodução.
Tabelas de ciclo menstrual coladas na parede do quarto, calendários presos na
porta do banheiro, fitinhas para detectar o período fértil no criado-mudo e
telefonemas enlouquecidos no meio do dia.
— Elias, desce agora.
—
O quê, Vera? Onde você está?
— Prestes a ganhar uma multa se você não
descer em dois minutos.
Eram dez da manhã. Longe da hora do almoço, mas
disposto a não contrariá-la, Elias se deixou seqüestrar para um motel na Glória.
Essa foi a primeira entre muitas vezes em que Vera percebeu, no meio do
expediente, que estava em seu período fértil. Nesses dias, ele tinha medo de
voltar para casa. Sabia que não dormiria antes das duas da madrugada, tendo ao
seu lado um ser deitado com o quadril sobre quatro travesseiros e as pernas
esticadas na cabeceira da cama.
Dois meses depois, a mulher decidira
optar pelo método-retenção. Elias era obrigado a guardar os craques da seleção
por vinte dias, para soltá-los todos numa única partida. Começou a entender como
se sentem os jogadores durante uma concentração.
Fracassada essa fase,
ela tentou o método exercício-diário, que foi terminantemente repelido. Já
haviam riscado oito meses. Voltaram a um especialista. Exames nela, coletas de
sêmen à base da Playboy, sangue de ambos e o veredicto de normalidade. O
problema, se existia, estava na cabeça de sua mulher.
Vera concordou em
abandonar calendários, fitinhas, medições de temperatura, e acatar um intervalo
de dois dias para cada relação.
Ela não falava mais nada, mas havia três
meses que Elias a percebia tensa durante alguns dias do mês. Início da crise que
culminava ao ouvi-la chorando no banheiro, encontrá-la chorando ao chegar em
casa, ou despertar com seu choro de madrugada. Ele se calava. Era melhor não
declarar o que ambos já sabiam. Esperava o tempo de secagem, que durava mais
cinco dias, e depois tudo voltava à normalidade.
O time do Cruzeiro
acabara de virar o jogo quando Vera saiu do banheiro. Seus olhos estavam
inchados e Elias se perguntou se ela havia ficado mais silenciosa ou se ele
estava desligado do mundo. Estranhou os passos contidos da mulher e resolveu
arriscar “está tudo bem?”. Ela se virou para ele com um olhar cortante e
manteve-se muda. Tirou a camisola, vestiu jeans, camiseta, e jogou a bolsa no
ombro. “Onde você vai?”, ele arriscou perguntar. Circular pelo Catete às dez da
noite não era uma idéia muito inteligente. Ela não respondeu. Ele ensaiou em
pensamento obrigá-la a dizer, mas desistiu. Imaginou que só quisesse espairecer.
Não contava com a ligação uma hora depois, uma verdadeira catarse, xingamentos e
a notícia de que ela havia ido embora.
Tentativas frustradas de consertar
a rachadura daquele casamento, incluindo a proposta de adoção, rechaçada por
Vera, e Elias decidiu sair, deixando o apartamento só para ela. Foi morar com um
colega de trabalho. Em todo tempo, sentiu falta da mulher, por quem ainda era
apaixonado. Inconformado, um pouco raivoso, buscou esquecê-la em noitadas com
amigos solteiros e amigas dadivosas.
Seis meses de separação, e o
telefonema de Vera. Pedia um encontro para acertarem os detalhes do divórcio. O
que deveria ter sido o começo de um fim, teve num beijo a fagulha para a volta.
Passaram a se encontrar depois do expediente, duas vezes por semana, reacendendo
aos poucos o fogo do relacionamento.
Um mês depois, noite de sábado.
Elias, mais comportado, estava assistindo a um jogo de seu time, em mais uma
derrota. O telefone tocou. Ouviu o “volta pra casa, papai” que lhe nublou os
olhos. Bastaram duas horas para que o armário do apartamento estivesse novamente
lotado.
Comemoraram a nova família no lugar mais visitado da casa, ele
desejando que ela não soubesse das muitas noites de solteiro-pós-casado, ela
feliz por ter usado pelo menos uma vez a sugestão da amiga: o método
material-alternativo.