Passageira
Enquanto o carro avançava numa velocidade de
bicicleta, a pista inversa corria fluída, levantando uma nuvem de fumaça preta.
À sua frente, outras nuvens. O sol tentava vencer a paisagem cinza-chumbo das
nuvens. Os raios que conseguiram a cegaram momentaneamente. Tateou a bolsa para
encontrar os óculos escuros. Vinte metros depois, o vidro foi salpicado por
grossos pingos de chuva, logo transformados em temporal. Poças rapidamente
começaram a se formar. Até que ela viu caminhar, por entre os carros, uma
verdadeira multidão de homens e mulheres de branco. Seu coração ao mesmo tempo
em que não sentia medo, parecia diminuir de ritmo.
Eles cercaram seu veículo, enquanto ela mantinha o olhar
sempre reto, ansiosa para que o trânsito se desfizesse. Travou as portas e
evitou a visão periférica.
O tempo foi
ficando cada vez mais fechado. Não arriscava confirmar, mas sabia que eles
continuavam ali.
Quando sua mão decidia destravar as portas, seu olhar
esbarrou no painel. Viu a foto com as filhas e os netos. Sentiu falta do marido,
que se fora há dois anos, após um casamento de cinquenta e um. Mas a vida ainda
era boa, não lhe faltava amor, nem saúde, apenas pequenos engasgos comuns às
suas sete décadas. Falta mesmo só sentia do ombro companheiro, ausência que
ainda a fazia chorar todas as noites, quando os bons motivos não lhe eram
suficientes para aplacar a saudade que vinha forte. Sentiu vontade de fugir
dali.
Os carros da frente começaram a se mover. Ela engatou a
primeira e seguiu devagar, até que no espelho retrovisor não viu mais nenhum
vestígio da multidão.
A chuva cessou e o sol foi vencendo novamente as nuvens
pesadas. A luz voltou a cegá-la momentaneamente.
Fechou os olhos
para se proteger e, ao abri-los, viu-se então de branco. Ouviu o barulho
metálico das máquinas que diziam o quanto estava viva.
Segurando suas
mãos estavam duas gerações: motivo para ainda continuar.