Paralelas
Na estrada, Mariléia. Sua companhia apenas os bêbados, drogados e
mendigos, que se perderam na madrugada, se perderam na vida. A lua está
encoberta pelo nevoeiro. Ou será pela poluição? Animais pelo caminho,
só os vira-latas. Acorda às quatro da manhã. Mal consegue tomar café.
Sai em seguida. A caminhada até o ponto de ônibus é longa: dois
quilômetros. De lá, são mais duas conduções. Ambas lotadas. Não há
espaço para respirar. A vida pára dentro dessas lotações. Vinte e dois
quilômetros ao todo. Destino: a escola pública Chão de Estrelas no
centro da Capital, onde leciona aos alunos da região. A aula começa às
sete.
Rosaléia chega à sua classe de alfabetização. Vinte e dois rostinhos
dividindo esperanças e as mesmas carteiras. Amontoam-se como milho no
paiol. Não há mais do que sete anos em cada um. Entre eles, destacam-se
os filhos do dono – melhor vestidos, com melhor história. Mas é a única
diferença. Ou talvez nenhuma. Para Tia Rosa é uma característica
qualquer como a cor dos olhos, sexo ou altura. São todas crianças.
Todas anjinhos. Todas um faixo de esperança.
Mariléia chega à sua classe de alfabetização. Vinte e dois rostinhos
dividindo esperanças. Cada qual na sua pequena mesinha, mas tão coladas
umas nas outras, que quase formam uma só. Não há mais do que sete anos
em cada um. Entre eles, destacam-se os filhos da classe média, em
situação de desemprego – melhor vestidos, com melhor história. Mas é a
única diferença. Ou talvez nenhuma. Para Tia Mari é uma característica
qualquer como a cor dos olhos, sexo ou altura. São todas crianças.
Todas anjinhos. Todas um faixo de esperança.
Rosaléia pega o seu cotoco de giz. Tem que durar o dia. Separou um para
cada dois dias. Já pediu ao dono da Fazenda, mas ainda não chegou nova
caixa. Ali tudo é longe: as notícias, os produtos, a esperança. Mas um
dia chega. Cabe a ela fazer-lhes esquecer, nesse momento, a dura
realidade que vivem. Muitos estão descalços, cadernos doados, barriga
vazia. São filhos de trabalhadores rurais, que lutam de sol a sol, sem
muitas vezes conseguir completar a panela de comida. Tia Rosa divide o
giz. Eles dividem a vida. São elite aqueles que possuem plantação no
quintal. Pelo menos, tem o que comer.
Mariléia pega o seu cotoco de giz. Tem que durar o dia. Separou um para
cada dois dias. Já pediu à Diretora, mas ainda não chegou nova caixa.
Ali tudo é difícil: a modernização, os produtos, a esperança. Mas um
dia chega. Cabe a ela fazer-lhes esquecer, nesse momento, a dura
realidade que vivem. Muitos estão com sapatos furados, remendados,
rasgados, doados. Só não estão descalços, pois têm que cumprir o
uniforme: não podem entrar sem sapatos. Onde já se viu estudar
descalço! Cadernos doados, barriga vazia. São filhos de desempregados,
subempregados, desvalorizados, que lutam de sol a sol, sem muitas vezes
conseguir completar a panela de comida. Tia Mari divide o giz. Eles
dividem a vida. São elite aqueles que conseguem se virar. Pelo menos,
em ter o que comer.
Tia Rosa não passa dever de casa. Sabe que dali, com algumas exceções,
todos vão para a lavoura. Levantam enxadas, carregam fardos. Mas
Rosaléia não ensina letras, ensina sonhos. Recusa-se a criar
analfabetos funcionais. Faz cartazes, jograis, teatro. Traz a vida para
a sala de aula.
Tia Mari não passa dever de casa. Sabe que dali, com algumas exceções,
todos vão trabalhar, de uma forma ou de outra. Seja em casa tomando
conta de irmãos, tão indefesos quanto eles; seja na rua a vender balas
nos sinais ou até pedindo esmolas. Levantam bolinhas, espanadores,
carregam fardos. Mas Mariléia não ensina letras, ensina sonhos.
Recusa-se a criar analfabetos funcionais. Faz cartazes, jograis,
teatro. Traz a vida para a sala de aula.
Rosaléia está no sertão. Ouviu falar de bolsa social, mas ali não
chegou. Não para as suas crianças. Já ouviu falar de quem não precisa,
que conseguiu. Enquanto isso, faz o social de dividir o pouco que tem:
seu conhecimento. Suas crianças são brasileiras. É a cara do Brasil.
Dali sairão cidadãos.
Mariléia está na cidade grande. Ouviu falar de bolsa social, mas ali
não chegou. Não para as suas crianças. Já ouviu falar de quem não
precisa, que conseguiu. Enquanto isso, faz o social de dividir o pouco
que tem: seu conhecimento. Suas crianças são brasileiras. É a cara do
Brasil. Dali sairão cidadãos.
Rosaléia e Mariléia, no asfalto ou na terra batida, não ensinam letras.
Ensinam sonhos.