O
Banco de DrummondAs ondas se formavam longe e chegavam à praia num convite ao mergulho. Sobre um
banco no calçadão, a estátua de metal em tamanho natural, de Carlos Drummond de
Andrade, espelho do que o poeta fazia ao entardecer, meditando ou simplesmente
apreciando o mar. Ao seu lado, Cirilo, remoendo lembranças e digerindo
incertezas.
“Pena que você está de costas, o mar está tão bonito hoje,
amigo! Parece que nem presenciou aquela agressão de ontem”.
“Que idéia
daquela idosa reagir àquele pivete? Não perdeu a bolsa, mas ganhou alguns
hematomas. Aquele menino não teve mãe... ou teve apenas quem o parisse e o
jogasse nesse mundo”.
Cirilo continuava seu monólogo, aguardando o
discursar de seu companheiro.
Sentava-se naquele banco, no calçadão, em
frente ao mar de Copacabana, há uns oito anos. Já fazia parte da paisagem do
lugar, assim como Drummond. A quem perguntasse, Cirilo respondia que vinha
diariamente, de 7h às 10h, para visitar o amigo. Apiedou-se dele desde o dia que
o deixaram ali à própria sorte. Houve até festa, veio o Prefeito. Depois disso,
ninguém mais apareceu; só Cirilo que vinha sempre.
Tinham longas prosas.
Falavam de política, das lindas mulheres se bronzeando, dos atletas de calçadão,
de livros, principalmente de livros. Certa vez, Cirilo recitou ao amigo o
excerto de um poema.
– Parece você, saído de ti. Ouça: “Alguns anos vivi
em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de
ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas
almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação”.
Foi
numa manhã de dezembro que Cirilo viu seu amigo proseando com um menino de uns
sete anos. Era segunda-feira, mas havia no garoto o viço de fim de semana,
quando todas as alegrias nos são permitidas.
– Oi! – disse
Cirilo.
– Oi! – o menino respondeu com pouco interesse.
– Bonito
dia, hein!
– É. Se eu tivesse uma bicicleta, adoraria andar nesse
calçadão.
– Não tem? – o menino negou com a cabeça.
– Por que não
pede?
– Deixei de pedir quando entendi que minha mãe não teria condições
para me dar.
– Ah!... Meu amigo não quer papo, hoje, não é?
– Que
amigo? – o menino o olhou incrédulo.
– Ora, ele! – apontou para a estátua
como se de gente se tratasse.
Pensou em responder que a estátua não
falava. Perspicaz, se calou. O moço devia ser maluco, vivendo com um amigo
imaginário.
Mudaram de assunto. Pouco depois, o menino se foi. No dia
seguinte, Cirilo o encontrou no mesmo lugar. Ficou com ciúme do amigo que o
traía.
– Você de novo? – Cirilo não estava muito cordial.
–
Sim.
– Por que está aqui?
– Para me despedir.
– Do quê? –
Cirilo ficou intrigado.
– Da cidade. Minha mãe veio para cá ainda menina,
sozinha. É nordestina. Ela conta que tinha quinze anos quando chegou. Foi um
conhecido de meu avô que trouxe, para trabalhar na casa dele. Mas logo a patroa
a dispensou e ela se viu sozinha, sobrevivendo de faxina e morando num quartinho
sem janela. – o menino relatava a vida da mãe, enquanto acompanhava o movimento
do mar, como se achasse ali as palavras – Ela sempre me conta que a primeira
alegria que teve foi ver o mar. Nunca teve coragem de entrar. Eu já cheguei bem
perto. Tentei entrar, mas uma onda me pegou. Acabei ralando o joelho. Fiquei
assustado e nunca mais voltei.
Cirilo ouvia o menino tagarelar sua vida,
mudo, mas atento.
– Num dia de folga, conheceu meu pai. Disse que ele
falava bonito. Apaixonou-se, e quando minha mãe ficou grávida, ele
desapareceu... Luta muito para me criar. Eu me viro sozinho durante o dia, mas
às vezes nos falta comida. Ultimamente, temos sorte, conseguimos quentinhas na
Igreja. Minha mãe aproveitou para juntar dinheiro e comprar duas passagens. Diz
que se é pra passar necessidade, que seja na terra dela. Vamos embora na
sexta-feira... Sabe, moço, estive olhando as ondas que vêm e vão e me fiz uma
promessa: um dia eu volto.
Uma pequena lágrima lhe escorreu na face. Mas
logo tratou de enxugá-la. E meio que saindo do transe, espevitado, perguntou à
Cirilo:
– E você, o que faz aqui todo dia?
– Faço companhia ao meu
amigo. A solidão traz um gosto de vazio. Fiquei sozinho por muito tempo. Lembro
que conheci uma moça. Bonita, faceira, tinha fogo nos olhos, jeito de guerreira.
Eu trabalhava numa biblioteca. Ela era doméstica e eu a perdi. Não lembro por
quê. Um dia me acidentei, acordei no hospital depois de semanas. Acho que estive
em coma, foi o que disseram. Eu não tinha ninguém. Só me lembrava vagamente de
onde morava e trabalhava. Lembranças completas, mesmo, só as bem antigas. Ah,
que pena serem tão imprecisas as recordações de minha morena! Quando saí do
hospital, fui demitido. Aí vim para cá e encontrei meu amigo. Fiquei com pena
dele.
Cirilo sussurrou no ouvido do menino:
– Ele é caladão assim,
mas sempre foi muito inteligente. Na minha opinião é um poeta... E você, sabe
empinar pipa?
– Sei, mas não tenho nenhuma. – Não havia vestígio do ar
sofrido, era apenas um menino.
– Amanhã vou trazer uma para empinarmos
juntos.
No dia seguinte, Cirilo chegou com a pipa mais linda que o
pequeno havia visto. Brincaram juntos toda a manhã. Mais um dia e Cirilo lhe
trouxe uma bola, e brincaram na areia. Na sexta-feira, Cirilo lhe deu um livro
de Monteiro Lobato. Disse a ele que guardasse muito bem os seus presentes. Era
tudo do que precisaria para ser feliz: de alegria e sonhos.
O menino se
foi. Viajou com a mãe, levando consigo seus tesouros. Nunca esqueceria Cirilo.
Um dia haveria de contar dele para a mãe. Cirilo talvez esquecesse o menino.
Tinha muito com o que se preocupar.
Calado e pensativo, Drummond era o
único que sabia do segredo que nenhum dos dois fora capaz de descobrir.