A traição
Ana Cristina Melo

Conto premiado no Concurso Exercícios Urbanos, promovido pelo Portal Literal

Livros  A traição

Fagundes nasceu carioca, da gema. Filho, neto e bisneto de fanáticos pelo mesmo clube. Quando nasceu, seu pai gritou na maternidade:

— É menino! De saco rubro-negro!

Aprendeu a falar “gol” antes de “gugu dada”. Cresceu assim e foi assim que conheceu Margarida. Moça linda, prendada, professora. Casaram, dois filhos, família classe média baixa. Vida modesta, mas dentro do esperado, feliz.

Sábado era sagrado: para o futebol com os amigos. A pelada começava cedo e se estendia até o meio-dia. Depois, Fagundes almoçava com a família, batia uma bolinha com o filho, fazia um cafuné na filha e na patroa e se sentava em frente à TV, para assistir ao jogo, que sempre era televisionado.

Era amor, paixão que não se apagava. Antes de casar, havia avisado à mulher que lhe seria fiel até a morte, se ela respeitasse seu amor pelo Mengão. Ela concordara. Dizia que não gostava de futebol. Só queria vê-lo feliz. Mulher de ouro, essa Margarida.

Jogo de adversário era visto na TV. Do seu Flamengo era visto da arquibancada, com direito à palavrão e ola. Aturava patrão, engarrafamento, falta de dinheiro, tudo, desde que pudesse ver seu Mengão jogar.

Vivia tão feliz que causava inveja. Certa vez, um companheiro de pelada lhe jogou a semente da dúvida: “Todas as esposas que conheço só reclamam de futebol... a sua é santa ou...”.

Daquele dia em diante, Fagundes passou a olhar desconfiado para a esposa. Ela reclamava de muitas coisas... mas do futebol, nenhuma palavra.

Até que chegou o dia daquela final. Flamengo x Vasco. Nada menos que no Maracanã. Festa para nenhum torcedor perder, ainda mais o Fagundes. Despediu-se da esposa e já estava no portão, onde eu esperava por ele, quando se lembrou da carteira que ficara na estante. Voltou, e já estava saindo, quando ouviu vozes no quarto. Estranhou, pois os filhos estavam na casa da sogra.

Caminhou pelo corredor, sem fazer barulho, e parou na porta entreaberta do quarto. Margarida estava ao telefone.

— Ele já saiu. Está tudo certo... daqui a meia hora. Estou no cio, hoje. Vou gritar tudo que mereço. Não esquece a caixa de camisinhas! Vamos estourar pelo menos umas três.

Fagundes se escorou na parede. Safada! Ordinária! Queria entrar no quarto e arrebentar com tudo. Mas não, iria pegá-la no flagrante.

Quando retornou, parecia um zumbi. Perguntei-lhe se havia visto fantasma. Não conseguiu responder. Arrastou-me pela camisa até a esquina e contou tudo. Gaguejava as palavras. Queria ficar espreitando a casa, esperando para pegar a mulher com a boca na botija e sabe-se lá no que mais. Não concordei.

— Tá louco, cara? Hoje é a final! Clássico imperdível.

— Eu sei, mas e o flagrante?

— Pode esperar. Se estiver te traindo, você vai ter outras oportunidades. Mas se perder o clássico de hoje, não vai se perdoar. Pensa no seu amor pela camisa, cara!

Fomos para o Maracanã. Chegamos meia hora antes de começar o jogo. Já estava lotado. A arquibancada onde ficamos já era um mar vermelho e preto, enquanto víamos do outro lado claramente o branco e preto dos rivais.

O jogo começou tenso. Muitas faltas. Um pênalti não marcado. E lá se foi a grande chance de gol do Flamengo. Era tão inacreditável, que parecia ficção. Aos trinta minutos do primeiro tempo, Rafael avança pela esquerda e lança Alex, que chuta em cima do goleiro. A bola é espalmada e cai redonda nos pés de Romário, que chuta no canto esquerdo. Vasco 1 x 0.

Fagundes nunca estivera tão desanimado. Enquanto eu berrava, gritava e xingava o juiz e a senhora mãe dele, meu amigo ficava imóvel. Pedíamos a saída do zagueiro do Flamengo e eu só conseguia ouvir a respiração pesada do Fagundes. Queria um gol do Mengão para curar sua “dor de cabeça”.

O Maraca pegava fogo. Quarenta minutos do primeiro tempo. Pênalti a favor do Vasco. Marco chuta onde a coruja dorme. Vasco 2 x 0. Cinco minutos depois, já nos acréscimos, o goleiro do Vasco lança a bola nos pés de Gomes, que dribla duas estátuas do Flamengo e faz Vasco 3 x 0.

Fagundes desiste. Avisa que vai embora. O que eu posso fazer? Meu time perdendo e meu melhor amigo numa depressão sem igual. Fui junto. Ele voltou mudo, surdo e cego. E eu, arrasado duplamente.

Chegamos na casa dele quando o jogo já estava nos acréscimos do segundo tempo. Ele entrou em casa e eu fui marcando atrás, homem a homem.

Fagundes avançou pela sala. Alex Dias avançou pelo centro.

Fagundes chegou ao corredor e ouviu gemidos: “Vai... vai”. Alex Dias após driblar um, entrou na grande área.

Fagundes chegou no quarto e respirou fundo, antes de abrir a porta. Alex Dias acertou um lindo passe para Romário, que driblou o goleiro, deixando-o no chão, chutando em seguida.

Fagundes abriu a porta e custou a acreditar. A bola balançou a rede e os torcedores foram à loucura. É Goool! Vasco 5 x 0.

Margarida quando percebeu a presença do marido não sabia o que fazer ou dizer. Fagundes sussurrou palavras ininteligíveis até que gritou com todas as suas forças:

— Adúltera!

Pôs a mão no coração e caiu sentado na porta do quarto. Eu, que assistia de trás do gol, fiquei sem saber se acudia meu amigo ou ajudava a dar o flagrante. Optei pelo segundo lance.

Passei por cima dele e entrei no quarto. Margarida continuava deitada na cama, com a bandeira na mão. Ao lado, sua irmã. O quarto estava enfeitado com camisinhas do Vasco, como se fossem bolas de gás. Quatro delas estavam estouradas. Elas, vestidas com a camisa do Romário, não tiveram coragem de continuar tripudiando sobre o coração adversário de Fagundes. Na TV, o locutor anunciava: “Final de campeonato. Vasco campeão da Taça Guanabara”.




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